Imagine um modelo de negócio em que os próprios trabalhadores se organizam para melhorar a geração de renda. Os lucros são importantes, mas o desenvolvimento da comunidade e a preservação do meio ambiente também são objetivos a serem alcançados. O comércio de bens e serviços nas periferias urbanas e comunidades rurais inspirou o conceito da chamada economia solidária. Ações de entidades e do poder público, além de estudos e iniciativas das universidades, têm buscado destacar o setor como alternativa de emprego e renda.
A artesã Rosana Pontes conta que conheceu o comércio justo em 2003, com um serviço de decoração de festas. De lá para cá, viu crescer em Pernambuco uma consciência voltada à importância da prática: “Eu acho que a busca por geração de renda é a porta de entrada. Poder contribuir com o sustento da casa, com a criação dos filhos. Depois, com as formações de cidadania, de direitos humanos, direitos políticos, associativismo, cooperativismo, depois que você entra nesse mundo de formação com essas outras temáticas que envolvem nossa vida, passa a ser um estilo de vida no sentido de que na hora que você compra, você se preocupa se aquilo que você está comprando vai ter exploração de mão de obra ou não”.
Rosana se tornou articuladora regional da Cáritas Nordeste 2, que abrange os estados de Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte. O trabalho envolve formação e acompanhamento de grupos. Confecção, arte recicladores, agricultura, apicultura, catadores, artesanato. Os setores são variados e incluem até a área financeira. Há experiências de moedas próprias de circulação local, poupanças comunitárias e microcrédito.
O Cadastro Nacional da Economia Solidária, vinculado ao Ministério do Trabalho, regista mais de 1500 empreendimentos no Estado. Embora o associativismo seja uma das bases da economia solidária, a professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Ana Dubeux, entende que não há necessidade de formalização para caracterizar a atividade. “A economia solidária está vinculada a uma economia de reciprocidade que existe nas comunidades. Quando uma tribo pratica troca, organização coletiva para comercialização, para produção, até para autoalimentação, ou autoconsumo, como a gente chama, isso também é economia solidária.”
Alguns teóricos situam o aparecimento da economia solidária como movimento social, no Brasil dos anos 1980, fruto da busca por trabalho e renda de homens e mulheres desempregados. Mas a pesquisadora identifica a origem no meio rural. “Eu acho que a economia solidária no Nordeste está muito mais ligada às lutas do campesinato, e dos povos e das comunidades tradicionais, indígenas, ribeirinhos, quilombolas etc. Se você pega, por exemplo, os dados do próprio Sistema Nacional de Economia Solidária, você vai ver que a maioria dos empreendimentos, no Nordeste, são rurais”.
Ana Dubeux é uma das coordenadoras da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UFRPE, Incubacoop, inaugurada em 1999. Atualmente, atende grupos de catadores de materiais recicláveis na Região Metropolitana Norte, com o objetivo de criar uma rede de comercialização. Também realiza um trabalho de transição para a agroecologia com produtores rurais do município de Bonito, no Agreste Central. A falta de políticas de incentivo é apontada como um dos entraves para que os grupos possam se tornar independentes e crescer.
Em 2005, a Alepe aprovou a lei que cria uma política estadual para o setor. Segundo Augusta Melo, gerente de apoio à economia solidária e ao empreendedorismo do Governo do Estado, existem dois projetos em desenvolvimento: o Integra, para capacitação, assessoria de marketing e assistência técnica, e o Avançar, que apóia catadores atingidos pelo fechamento dos lixões. “Todos os dois projetos são em convênio com a Senaes, a Secretaria Nacional de Economia Solidária, que faz parte do Ministério do Trabalho, com a Secretaria de Micro e Pequena Empresa, Trabalho e Qualificação, que fica com a Gerência de Apoio aos Empreendimentos da Economia Solidária. Há um direcionamento para preço justo e sustentabilidade”. Também são promovidas feiras de economia solidária para divulgação e venda dos produtos, além da participação em eventos relacionados, como a Fenearte.
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